quarta-feira, 30 de novembro de 2016

A sombra das redes sociais

A revolução digital mudou a forma como as pessoas se relacionam, trabalham, descansam. Não há dúvida das vantagens que a internet proporciona, como economia de tempo, praticidade, proximidade e possibilidade de conexão com pessoas de interesses semelhantes. Porém, como tudo na vida, a rede também tem um lado ruim. Embora ainda não existam dados específicos sobre a influência das redes sociais no índice de suicídio, o assunto começa a chamar a atenção. André Brasil Ribeiro, presidente da Associação Psiquiátrica da Bahia e membro da Associação Brasileira de Psiquiatria, estuda a relação entre tecnologia da informação e medicina há mais de duas décadas. Atualmente, seu enfoque é em mídias sociais.


Em setembro passado, em função da campanha de prevenção ao suicídio Setembro Amarelo, o médico participou de alguns estudos em parceria com desenvolvedores do Facebook para descobrir quantas menções relacionadas a suicídio eram feitas pelos brasileiros diariamente. O resultado foi chocante: por dia, o tema é mencionado cerca de 16 milhões de vezes, só no Brasil. "Isso é sinal de que o tema é cotidiano na vida de muita gente", alerta o especialista.

A preocupação maior é com a saúde mental de jovens e adolescentes. "Quando você vê algo nas redes sociais, pode reagir àquela postagem com ‘curti’, ‘amei’, ou ‘uau’. Mas qual a alternativa para as postagens sobre suicídio?", questiona André Ribeiro. O fato é que Twitter, Tumblr, Instagram, Facebook e Google já estão aptos a identificar postagens com teor suicida e indicar alternativas. No Facebook, por exemplo, há a opção de denunciar esse tipo de conteúdo. Se isso ocorrer, o autor será reencaminhado para uma página de ajuda (com mais de 150 mil visitas por dia). No caso do Google, o site identifica intenções suicidas a partir dos termos buscados e direciona para o Centro de Valorização da Vida (CVV).

Em suas pesquisas, André Ribeiro descobriu diversos "grupos da morte": comunidades em que usuários postam orientações e pedem dicas de como tirar a própria vida. "Muitos perguntam qual é o método mais eficaz e indolor. Os adolescentes estão glamorizando a morte nas redes sociais", afirma. Na Índia, país com maior taxa de grupos da morte no mundo, segundo o médico, há redes sociais exclusivas para suicidas. Lá, os participantes compartilham fotos e vídeos de mutilações e até marcam encontros para cometer suicídio. "Perfis que incentivam essa atitude estão tomando proporções assustadoras", alerta.

Justamente por isso, o psiquiatra frisa: é importante falar sobre o assunto e ajudar quem parece estar inclinado a cometer suicídio. "A internet pode ser fatal ou vital. Temos que partir de onde o ato começa a ser planejado: as redes sociais", reforça. Segundo ele, do ponto de vista estatístico, até 2020, o Brasil pode se tornar o terceiro país do mundo em número de suicídios. Atualmente, a posição é ocupada pela Rússia, com 22 suicídios a cada 100 mil habitantes — bem mais que a taxa mundial de 7 suicidas a cada 100 mil pessoas. "Não podemos deixar essas postagens passarem em branco. Ao vermos algo do tipo, temos que denunciar imediatamente." 
Por: André Ribeiro